A história do Caminho do Peabirú

Tem uma história que desperta atualmente muito interesse: trata-se de uma rota transcontinental pré-cabralina, muito usada por indígenas brasileiros e primitivos povos andinos. Designada em seu conjunto como “caminho” ou “sistema” do Peabiru, ela ligava o oceano Atlântico ao Pacífico de uma maneira surpreendente até para o homem moderno.

Sua presença no continente sendo incontestável, e sua importância histórica indiscutível – possibilitou a migração e o intercâmbio das varias culturas indígenas do continente, a descoberta de riquezas, a criação de missões religiosas, as trocas comerciais e o estabelecimento de povoados e cidades -, esse conjunto de estradas ancestrais magnífico, teve suas ramificações nas terras místicas da Cuesta de Botucatu.

No Brasil o caminho saia de São Vicente, no litoral paulista, cruzava a cidade de São Paulo, passava pelas regiões das atuais de Sorocaba, chegava na região da Cuesta de Botucatu pelo majestoso Rio Tietê, cruzava a encosta da Cuesta, passando por belas florestas e riachos, até as místicas três pedras e o Gigante adormecido, e chegavam no Rio Paranapanema , e seguia rumo ao estado do Paraná, penetrava no Chaco paraguaio, atravessava a Bolívia, ultrapassava os Andes e alcançava o Peru e a costa do Pacífico.

Ainda havia outros ramos do caminho que t nas regiões das atuais cidades de Cananeia em Florianópolis.Ela passa pelo litoral catarinense até o Rio Itapocu, em Barra Velha, sobe por Jaraguá do Sul, Corupá, passa pelo interior do Paraná, Foz do Iguaçu, Paraguai até chegar às atuais áreas da Bolívia e Peru, antigo território do império Inca, de onde os índios traziam ouro para o Brasil.

Os incas eram conquistadores e, sendo historicamente reconhecidos como grandes construtores de estradas, não haveria nada mais natural que a expansão de seus contatos com os povos indígenas situados na parte leste de seu império.

Realmente, esse é um fato histórico abundantemente documentado: todo o período Brasil Colônia foi marcado pela profunda rivalidade entre portugueses e espanhóis, resultante ainda daquele Tratado de Tordesilhas de 1494, quando, no dizer jocoso de alguns contemporâneos, as duas potências marítimas, Portugal e Espanha, sob a supervisão pontifícia, dividiram entre si “o legado do testamento de Eva”, isto é, as terras recém-descobertas da América. Ambas as coroas se empenharam ao máximo em descobrir e conservar para si um ou mais caminhos secretos, entre mata e cordilheira, que iam por ali furando o continente virgem até chegar aos Andes, facilitando a busca de fabulosos tesouros de ouro e prata de que havia notícias.

Há abundante documentação de expedições, particulares ou oficiais, organizadas com essa finalidade. Como a do português Aleixo Garcia, que, em 1524, partiu de Santa Catarina com 2 mil índios carijós e usou o “sistema” para atravessar o sertão, seguindo até os Andes – chegou à província de Charcas (atual Sucre), na Bolívia, cerca de oito anos antes do desembarque de Francisco Pizarro e da conquista do Peru (1532).

Em 1542, o espanhol Alvar Núñez Cabeza de Vaca embrenhou-se por um desses caminhos da mata e acabou por descobrir as cataratas do Iguaçu. Durante todo o século 16 foram constantes os relatos de viagens pelo interior das matas, quer rumo aos Andes, quer em direção ao sul e ao Paraguai. Como as de Johan Ferdinando (1549), dos companheiros de Hans Staden (1551), dos jesuítas, em especial o padre Leonardo Nunes, de Brás Cubas e de Luís Martins (1552). Um viajante alemão, Ulrich Schmidel, por volta de 1553 explorou o Peabiru, percorrendo a Bolívia, o Paraguai e a região do atual estado do Paraná. De volta à Alemanha, descreveu suas aventuras em um livro de memórias, publicado em Frankfurt em 1567. Um de seus feitos foi ter ido de Assunção a São Vicente pelo caminho da mata.

Antes ainda, em 1530, Martim Afonso de Sousa havia partido de Portugal com uma missão tríplice: combater os traficantes franceses, incrementar o povoamento do Brasil e ir em busca dos tesouros andinos, justamente usando os nem tão misteriosos (na época) caminhos da mata. Ele tratou de fazer isso já em 1531, antes de fundar São Vicente, a primeira vila portuguesa da América, organizando uma expedição comandada por Pero Lobo – a qual, no entanto, foi chacinada pelos índios guaranis, na travessia do rio Iguaçu.

Em relação ao Peabiru, a melhor prova de sua existência e de seu propósito de servir como rota de busca dos tesouros andinos é encontrada em uma ordem expressa dada em 1553 pelo primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa. Em nome do rei de Portugal, foi desativado o núcleo de uma suposta povoação fundada por Martim Afonso em 1532 (a Vila de Piratininga) e ordenado o fechamento do “caminho do sertão”, ao qual ela dava acesso, sendo proibida, sob pena de morte, sua utilização – pelo temor de que os espanhóis dele se servissem, tivessem acesso aos metais preciosos e estendessem assim sua conquista por todo o território sul-americano.
Peabiru

Embora alguns estudiosos digam que o termo Peabiru tem origem tupi-guarani (“pe”: caminho; “abiru”: gramado amassado ou, ainda, caminho da montanha do sol, para outros – como Sérgio Buarque de Holanda e Luiz Galdino), essa é uma designação que somente passou a ser utilizada no século 17, quando os paulistas descobriram que “biru” era o nome dado ao Peru pelos seus naturais. Ainda segundo esses historiadores, o primeiro a utilizar um simulacro dessa palavra não teria sido, como em geral é dito, o jesuíta Pedro Lozano, mas sim Díaz de Guzmán, autor de uma Historia da Argentina, que se referiu ao “peabuyu”.

Autor
Cristiano Vieira Pinto
Botucatuense – Guia de Turismo na Cuesta
Presidente Comutur de Botucatu
Mundo Cuesta Ecoturismo

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